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Nakasendo – o caminho das montanhas

Nakasendo – o caminho das montanhas

Japão

Imagine-se percorrendo um caminho centenário pelo meio das montanhas no Japão. O Viver a Viagem caminhou por um trecho muito bem preservado do Nakasendo, uma das cinco rotas oficiais que conectavam Quioto à Edo (atual Tóquio) durante séculos e mostra para você como foi.

 

 

O que é o Nakasendo?

O que se conhece hoje como Nakasendo, faz parte de um antigo caminho que ligava Quioto a Edo passando pelo meio das montanhas – vem daí o nome: naka “meio”, sen “montanha” e do “caminho”. Sua designação como caminho oficial e ápice foram durante o período Edo (1600–1868).

Sua origem, contudo, remete ao século VIII como uma das inúmeras rotas centradas ao redor da antiga capital Nara. A rede de caminhos servia para manter o estado japonês unido. Com o tempo, muitos outros surgiram para interligar as cidades. Um deles foi o Kisoji que, futuramente, teve suas 11 cidades agregadas ao Nakasendo – e foi por onde o Viver a Viagem caminhou.

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Ukiyo-e de Hiroshige mostrando a passagem entre Magome e Tsumago, por onde caminhei[1]

No começo da período Edo, após a unificação do Japão sob o xogunato de Tokugawa, Edo (atual Tóquio) passou a ser o centro político e militar do país. Para conectar ambos os centros algumas mudança foram feitas afim de estabelecer uma eficiente rede de comunicação entre ambas as cidades, servindo como via de transporte de oficiais, espiões, mercadorias especiais, senhores feudais e o próprio xogum. Cinco rotas oficiais foram estabelecidas para estes propósitos, umas delas foi Nakasendo.

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Nakasendo é representada pela rota azul (número 2)[2]

As rotas foram cuidadosamente interligadas conectando 69 cidades postos responsáveis por administrar o caminho e prover comida e alojamento para os que o utilizavam.

Ainda nos dias de hoje, é possível encontrar trechos originais do caminho. Alguns foram restaurados e outros se integraram às estradas modernas que interligam o Japão. A seção mais famosa da rota fica no Vale Kiso, entre Tsumago-juku e Magome-juku – trecho, de quase 8km e três horas de caminhada.

 

 

Por onde passei

Sempre fui apaixonado por ukiyo-e (xilogravuras japonesas). Ainda quando fazia aulas de japonês lembro de ter visto algumas gravuras de Ando Hiroshige e pensado “será que esses caminhos ainda existem? Que vontade de percorre-los.”

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Ukiyo-e de Hiroshige mostrando Noriji, um dos trechos do Nakasendo[3]

Pois bem, um dia descobri que eles ainda existiam e resolvi inclui-los à minha ida ao Japão. Decidi percorrer parte do Nakasendo junto com o Lufe do Life by Lufe.

Planejei a nossa passagem por lá partindo dos alpes japoneses. Feliz decisão. Passamos um dia em Narai antes de seguirmos para Magome-juku, de onde caminhamos pelos 8km até Tsumago-juku.

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Caminho para Narai-juku[4]

Durante o período Edo Narai marcava o ponto intermediário entre Quioto e Edo para os viajantes da Nakasendo. Foi a cidade posto mais rica do Vale Kiso. Suas casas alinhadas e restauradas se estendem por uma distancia muito maior que na maioria das outras cidades postos. Há duas casas abertas ao público, lojas de souvenir, restaurantes, ryokans e minshukus.

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Rua principal de Narai[5]

As lanternas que iluminam a cidade são as mesmas dos tempos remotos, porém, agora com energia elétrica. Caminhar pelas ruas tanto de dia quanto à noite é algo mágico. Quando estive lá a cidade estava vazia, apenas com japoneses a passear nas últimas semanas do outono.

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Entardecer em Narai[6]
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Caquis secando. Cena comum no outono japonês[7]
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Uma de tantas fachadas centerárias[8]
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Lojinha cheia de pãezinhos recheados cozidos no vapor[9]
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O hotel de mais de 220 anos que passei a noite[10]
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Estação de Narai[11]

No dia seguint, seguimos para Magome-juku, para caminhar pela trilha nas montanhas até chegar em Tsumago-juku. Escolhi começar por Magome por ser mais fácil – nesse sentido a caminhada descende, cansando menos.

Para chegar lá, pegamos um trem local até Nakatsugawa e da estação, um ônibus até Magome-juku.

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Estação de Nakatsugawa, de onde se pega o ônibus para Magome-juku[12]

Magome é uma fofura. A rua principal da cidade ziguezagueia morro acima até encontrar o caminho. Na subida, ryokans, restaurantes e lojinhas perfilham o trajeto. A cidade também é conhecida por ser onde o escritor japonês Shimazaki Toson nasceu. Sua obra mais famosa chama-se Yoakemae (Antes do nascer do sol), na qual ele descreve como era a vida na região no começo da Restauração Meiji – acontecimento que marca o fim do xogunato Tokugawa. Foi um período de muitas transformações nas áreas do governo, instituição, educação, economia e religião; transformando o Império do Japão na primeira nação asiática com um moderno sistema de nação-estado.

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Magome ziguezagueia pelo morro até encontrar o caminho[13]
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Remédio natural para diversas mazelas[14]
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Há muito verde entre as casas tradicionais. É tudo muito bonito e preservado[15]

Escutei um tilintar pelas ruas e até comentei com o Lufe. Muitos caminhavam com um sininho. Ignoramos e seguimos o caminho.

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Quase chegando no início da trilha[16]
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Transição entre cidade, estrada e trilha[17]

Achava bonitinho quase todos os peregrinos passando por mim com um sino. Imaginei ser uma tradição… até avistar uma placa preta e amarela com um sino maior ao lado.

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Sim, há urso na região[18]
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Confesso ficar aliviado a cada sino que via[19]

Finalmente entendi que o sino era, na verdade, para afastar os ursos que ali vivem.

Há sinos a cada tantos metros. A cada encontro, batíamos com força na esperança de ensurdecer qualquer urso que estivesse por perto – quando, na verdade, nós ensurdecíamos.

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Calçamento original[20]
O trajeto é tranquilo se feito no sentido Magome>Tsumago. Há poucas subidas[21]
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Por vezes a estrada corta o caminho[22]

O caminho é lindo. À época, as folhas de outono estavam mudando de cor. As cores todas se misturavam à floresta e às casas antigas. Os caquizeiros carregados e sem folhas contrastando com o céu azul.

Exatamente nesta curva da foto acima conhecemos o senhor Owaki, um professor de design industrial aposentado que vive ali. Ele nos convidou para conhecer sua casa e Lufe fez um incrível ensaio para o Life by Lufe.

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A casa do Owaki[23]
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Senhor Owaki nos servindo um chá com muito carinho[24]
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Chinelinho lindo![25]
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Tradição até no fogão[26]
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Surpresa, no quarto do Owaki há uma rede brasileira![27]
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Owaki e seu filho[28]
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A beleza do outono japonês[29]

No meio do caminho também encontramos esta senhora debulhando edamame, secando batatas, pimentas e desidratando cogumelos. Seguramente ela tinha mais de 80 anos.

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Debulhando edamame[30]
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Claro, depois de ter colocado as pimentas para secar[31]
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… e as batatas doces[32]
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Fachada bucólica e centenária no caminho[33]
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Parte do caminho[34]
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Parte da trilha[35]
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Dois ukiyo-e feitos da região por onde eu estava caminhando[36]
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Depois de uns 40 minutos de caminhada chega-se a uma casa suporte. Lá é possível tomar chá, água e descansar da subida entre Magome e o ponto mais alto da caminhada[37]
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Na trilha[38]
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Trilha[39]
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Trecho final e com calçamento original[40]

A chegada a Tsumago-juku é muito bonita. Você chega por uma trilha descendente num vale que serpenteia a montanha, passando por casas muito antigas e por ricas texturas de outono.

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Chegando em Tsumago[41]
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Eu pedindo informação de como chegar à ryokan[42]
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Primeiras impressões de Tsumago[43]

Tsumago é conhecida por ser uma das cidades postos mais bem preservadas do Japão. A cidade e seus moradores se esforçam para recriar a atmosfera do período Edo. Carros são proibidos de circular pela rua principal; cabos de energia e telefone são escondidos; o honjin e o wakihonjin foram preservados – em todas as cidades postos, o honjin era a hospedaria principal que acolhia os oficiais do governo, se fosse necessário mais alojamento o wakihonjin era utilizado para acomodar viajantes de menor hierarquia -; assim como o estábulo onde os viajantes alugavam cavalos para ajudar na jornada.

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Rua principal de Tsumago[44]
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Linda textura da fachada en Tsumago[45]
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Os caquis secos viram doces com recheio de castanha portuguesa[46]
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Caminhando pelas ruas de Tsumago[47]
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Anoitecer com a lua surgindo por trás das montanhas[48]
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Até logo Tsumago[49]

Que experiência maravilhosa ter percorrido um caminho tão importante e antigo para a história do Japão. Um caminho que habitou meu sonhos por anos. Um caminho que descobri através de uma xilogravura. Viajar é muito mais do que apenas ir a um lugar, é estar exposto a diversas formas de estímulo e entende-las; é conecta-se com as pessoas, a história, a gastronomia e tudo que nos cerca.

 

 

Escolha seu trecho

Ainda é possível percorrer a Nakasendo, porém, muito do seu traçado original já foi pavimentado e as cidades se desenvolveram. Se você busca a atmosfera do período Edo em sua glória, escolha percorrer o trajeto entre Nakatsugawa e Kiso Fukushima; em particular o trecho entre Magome-juku e Tsumago-juku – o mais popular e estruturado.

Abaixo, os trajetos da Nakasendo:

  • Quioto a Sekigahara;
  • Sekigahara a Nakatsugawa;
  • Nakatsugawa a Kiso Fukushima;
  • Kiso Fukushima a Nagakubo;
  • Nagakubo a Karuizawa;
  • Karuizawa a Fukiage;
  • Fukiage a Tóquio;

 

 

Onde ficar?

Cheiro de madeira e da palha de tatami; silêncio, interrompido apenas pelo som do vento a soprar as folhas pelas ruas vazias; frio de começo de inverno; céu estrelado e a sensação de ter voltado no tempo.

Aproveite para se hospedar numa ryokan ou minshuku centenária. Tive a oportunidade de ficar em duas ryokans com mais de 200 anos cada. Em Narai, ficamos na ryokan Echigoya de 220 anos e desde sempre na família de Yutaka.

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Ryokans alinhadas na rua principal de Narai[50]
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Geta (chinelo de madeira) para os hospedes caminharem pelas ruas de Narai[51]
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Yutaka, esposa e filhas[52]
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Entrada da ryokan. Os guarda-sóis são para uso dos hospedes[53]
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Portas de madeira com folha de papel de arroz; escada com gavetas[54]
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Caminhar por corredores de madeira é completamente diferente. O chão é macio e o entorno absorve ruído[55]
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Yutaka ajeitando os futons[56]
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Depois do banho, nada como vestir uma yukata para ficar dentro da ryokan e tomar chá[57]
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Todas as refeições são feitas dentro da ryokan, com ingredientes locais e sazonais. Um mimo! Yutaka preparando a janta[58]
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A ryokan é administrada pela família. Sua sogra ajuda a preparar e a servir as refeições[59]
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Há muito carinho em cada detalhe. Desde a escolha da louça até o preparo de cada prato[60]
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Banheiro japonês. Ao entrar, você deixa suas roupas num cesto e entra para a sala de banho[61]
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Toma-se o banho sentado, com o auxílio de uma travessa. Depois, já limpo, é hora de relaxar na banheira[62]
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Café da manhã. Sopa, omelete, vegetais locais, alga e chá[63]

Em Tsumago-juku ficamos em outra ryokan.

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Fachada ao entardecer[64]
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Um dos pratos no jantar. Sabe o que tem no potinho azul? Larvas de abelha no misô! Iguaria regional[65]
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Cogumelos da região com picles de pepino e flor de cerejeira[66]
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Vegetais da região com raiz[67]
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Mais um café da manhã delicioso[68]

 

 

Como chegar?

Como há muitos trechos e a cada trecho outras tantas maneiras de chegar, selecionei a caminhada de Magome-juku a Tsumago-juku pelo seu valor histórico, estado de preservação e facilidade de acesso.

Imagino que a grande maioria que for percorrer a caminhada entre Magome-juku e Tsumago-juku, no segmento Nakatsugawa-Kiso Fukushima, provavelmente virá de Quioto/Osaka ou Tóquio.

Vindo de Tóquio

Você pode tanto ir de trem bala até Nagoya, e lá trocar por um trem local entre Nagoya e Shijiori, parando em Kiso e pegando um ônibus até Magome-juku; ou um trem expresso até Nakatsugawa, de lá trocar novamente por um trem local até Kiso e pegando um ônibus até Magome-juku.

Ou ainda, optar pelo JR Azusa limited express até Shijiori. De lá, siga para Narai-juku ou vá direto para Kiso e e pegue um ônibus até Magome-juku.

Vindo de Quioto/Osaka

Neste caso, o melhor caminho é ir até Nagoya de trem bala (pela linha Tokaido) e lá trocar por um trem local entre Nagoya e Shijiori, parando em Kiso e pegando um ônibus até Magome-juku; ou um trem expresso até Nakatsugawa, de lá trocar novamente por um trem local até Kiso e pegando um ônibus até Magome-juku.

Vindo de Kanazawa, Toyama ou Nagano

Se estiver em alguma dessas cidades, siga de trem bala até Nagano; troque de trem e siga até Shijiori. Troque mais uma vez de trem e siga para Narai-juku ou vá direto para Kiso e e pegue um ônibus até Magome-juku.

Vindo de Takayama e arredores

Pegue um ônibus direto para Matsumoto e de lá sega até Shijiori. Lá, pegue o trem e siga para Narai-juku ou vá direto para Kiso e e pegue um ônibus até Magome-juku.

CC-BY-NC

Referências e Notas Explicativas   [ + ]

About the author

Sou fotógrafo, moro em São Paulo e já estive em 16 países. O Viver a Viagem é meu projeto pessoal e vai além de dicas triviais; quero proporcionar uma imersão cultural e ajudar você a viajar com um olhar diferente.
  • Segredos de Londres

    Oi Alexandre,
    Tudo bem?
    Conheci seu blog no instagram da RBBV (também sou membro) e fiquei encantada com suas fotos e relatos do Japão profundo. Também passei um tempo no país há alguns anos e desde então sou super fã.
    Abraço,
    Deb

    • Alexandre Disaro

      Olá Deb!
      Tudo ótimo. E contigo?
      Uau!!! Semana passada estava acessando seu site sem saber sobre você. Hoje abro meu wordpress e tem uma mensagem sua. Que legal! Feliz coincidência.
      Passei cinco dias em Londres e já foi o suficiente para me apaixonar pela cidade. Que sonho poder morar aí!
      Obrigado pelo carinho e pelas palavras! Fiquei super feliz em saber que despertei tantas coisa boas com as fotos e relatos.
      O Japão é apaixonante, né? Foi uma viagem mágica; morro de saudade todos os dias. Quero voltar e explorar mais lugares.
      Não cheguei a morar lá, mas cogito fazer algum projeto e passar alguns meses por lá no futuro, aprimorando a língua e podendo gerar mais conteúdo.
      Abraço!

  • Diogo Perin Jacoe

    Oi Alexandre. Gostei muito do seu post. estou planejando uma viagem a Narai agora em março, porém não consigo encontrar um site de reserva dos ryokans em inglês. Como você fez a reserva do ryokan Echigoya? Grato, Diogo.

    • Alexandre Disaro

      Oi Diogo,
      Fico feliz que tenha gostado do post.
      Reservei a ryokan através do site deles. Porém, eles só falam japonês. O Yutaka (proprietário) fala o mínimo de inglês, talvez o suficiente para efetuar uma reserva: naraijyuku-echigoya@ninus.ocn.ne.jp
      Estarei viajando de 16/3 a 17/4. Se quiser, me passa por email (alex@viveraviagem.com.br) os dias que você vai passar por lá (dia de check in e dia de check ou) que entro em contato com ele para você. Pagamento lá apenas em dinheiro.
      Abraço,

  • ronnie

    Olá Alexandre que viagem inspiradora. Estou tentando encaixar este trecho da sua viagem no meu roteiro. Vou em março e tenho algumas dúvidas, poderia me ajudar? Você fez o trajeto num único sentido ou foi e voltou no mesmo dia? Recomenda começar a caminhada em que horário? pelas fotos vi que você estava só com uma mochila… deixou a mala na estação? desculpe te encher de perguntas. abraço